Reportagem

Publicada em: 04/12/2001 no Diário de São Paulo

Falcons em ação

DENILSON OLIVEIRA


Eugênio Goulart

O BONECO do aventureiro Falcon encanta meninos
há mais de 20 anos. A brincadeira começou nos Estados
Unidos em 1964, mas só chegou às prateleiras do Brasil
no final da década de 70
Os antigos bonecos Falcon e Comandos em Ação viram peças valiosas nas mãos de colecionadores, que chegam a pagar R$ 4 mil pelos exemplares mais raros

A molecada de hoje, que brinca com Game Boy, Pokémon, Harry Potter e outras geringonças eletrônicas, mal sabe qual era o brinquedo da moda há 20 anos. Os meninos da época, agora marmanjos, divertiam-se com as aventuras de um herói barbado: Falcon, o boneco que nove entre dez garotos pediam aos pais.

A febre pelo brinquedo começou nos Estados Unidos em 1964, com o nome de G.I. Joe. Mas as crianças brasileiras só tiveram a chance de conhecer o boneco, que aqui ganhou o nome de Falcon, no final da década de 70. Porém, a alegria não durou muito tempo e o brinquedo parou de ser fabricado em meados de 1984, dando lugar a outra geração de heróis em miniatura, os Comandos em Ação, parentes próximos de Falcon, que também não existem mais.

 

Objeto de valor

Os fãs saudosistas não medem esforços para aumentar suas coleções, alguns chegam a guardar centenas de bonecos em casa. O que na época era um simples brinquedo, às vezes surrados por seus donos, hoje é uma peça valiosa para muitos colecionadores. Um boneco Falcon, em bom estado de conservação, pode custar de R$ 100 a R$ 4 mil. Já os Comandos em Ação também têm um valor salgado, os primeiros bonecos, que não foram produzidos nos Estados Unidos, chegam a valer US$ 40 a US$ 300 na terra de Tio Sam.

Prova disso é a paixão que Christiano Delatore tem pelos G.I. Joes. Quando não está exercendo a função de engenheiro mecânico de projetos, o rapaz larga a prancheta para cuidar de seu acervo. “Coleciono há 18 anos e hoje tenho em casa 300 bonecos e uns 120 acessórios”, diz Delatore. O rapaz também tem em sua coleção alguns bonecos que praticamente sumiram do mapa. “Tenho o Falcon Olhos de Águia, que fez muito sucesso no Brasil e hoje é uma raridade”, completa.

Fã-clube

Outro orgulho de Delatore é ser um dos fundadores do fã-clube Brajoes , que montou há três anos ao lado do engenheiro elétrico Ricardo Hilsdorf. O grupo já conta com a participação de 65 pessoas de todo o Brasil, possui uma página na Internet (http://brajoes.vilabol.uol.com.br) e tem até dois sócios americanos.

“Conheci o Christiano por meio de um colecionador estrangeiro. Comprava seus bonecos e ele me indicou alguns brasileiros que também eram seus clientes. Começamos a nos comunicar por e-mail e então surgiu a idéia de montar um fã-clube e hoje somos amigos”, diz Hilsdorf.

O engenheiro nutre sua paixão pelos bonecos desde 1986, quando ainda era criança e assistia ao desenho animado dos Comandos em Ação no Xou da Xuxa. “Sempre quis colecionar algo. Como tinha alguns Comandos, comecei a vê-los como uma coleção”, explica o rapaz, que já perdeu a conta de quantos bonecos conseguiu guardar ao longo dos anos. “Devo ter mais de 500 bonecos e quase 200 veículos.”

Boneco lutava contra o terrorismo

Passar a tarde conversando com um colecionador é praticamente ter uma aula sobre os G.I. Joe. Tanto Delatore quanto Hilsdorf têm uma resposta na ponta da língua para qualquer pergunta que for feita, além de explicarem os detalhes da história dos bonecos.

A idéia de criar o brinquedo foi do agente americano Stan Weston, influenciado por um programa de televisão. Weston apresentou o projeto a Don Levine, designer de brinquedos, e nosso Falcon chegou às lojas em 1964. O nome do brinquedo foi inspirado no filme de guerra The Story of G.I. Joe, de 1945. Delatore dá mais detalhes sobre a história: “G.I. quer dizer Government Issue, em português claro, assunto do governo. E Joe é o mesmo que Zé.”

Para os criadores os G.I. Joe representavam um esquadrão de elite com os melhores soldados americanos, e os heróis lutavam contra um tema que continua atual: o terrorismo, mas a época era outra e os Estados Unidos ferviam com a guerra fria e enviaram seus soldados para o Vietnã.

Homenagens

A linha G.I. Joe também ganhou algumas versões especiais. Os soldados da Segunda Guerra Mundial foram homenageados, Falcon vestiu-se de combatente e até ganhou uma companheira, que lembrava as enfermeiras que foram para a Europa.

A conquista do espaço foi lembrada com um boneco de Buzz Aldrin, o segundo homem a pisar na Lua. Outros heróis da história americana também viraram G.I. Joes, como um oficial da Guarda de Honra do Túmulo de Soldado Desconhecido, em Washington, policiais e bombeiros de Nova York e até um soldado da Polícia Real Montada do Canadá.

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